
Em entrevista exclusiva ao portal ND Mais, o ex-governador de São Paulo João Doria avaliou o cenário econômico, político e internacional do Brasil e afirmou que a insegurança jurídica continua sendo o principal obstáculo para a entrada de novos investimentos estrangeiros. Segundo ele, o país segue atrativo, mas perde competitividade quando demonstra instabilidade institucional, mudanças repentinas de regras e interferências governamentais.
“O que inibe o capital estrangeiro é a insegurança jurídica”, afirmou, João Doria, relatando que esse é o ponto mais mencionado por investidores em suas conversas na Europa.
João Doria também comentou o papel do LIDE, organização que fundou há 24 anos e que hoje reúne mais de 4 mil empresas. Para ele, o grupo segue como um espaço plural de diálogo, com participação de ex-ministros de diferentes governos e atuação em dezenas de países. Ele destacou que o objetivo do LIDE é aproximar governos, setor privado e investidores internacionais, oferecendo previsibilidade e ambiente de negócios.
Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir
Modelo de reforma tributária aprovado está longe do ideal, afirma João Dória
Ao falar sobre a reforma tributária, João Doria avaliou que o modelo aprovado está longe do ideal, mas representa a “reforma possível” dentro do cenário político atual. Para ele, mesmo com imperfeições, o novo sistema tende a reduzir conflitos entre estados e municípios e simplificar rotinas para quem produz.
Na análise política, Doria foi direto ao afirmar que não haverá terceira via em 2026. Segundo ele, o país caminhará novamente para um cenário polarizado, dessa vez com a centro-direita mais estruturada. Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Eduardo Leite e Ratinho Júnior foram citados como nomes com potencial para liderar esse campo, mas Doria acredita que dificilmente haverá espaço para um candidato alternativo fora desse eixo. “Não haverá resquício; haverá polarização”, afirmou.
Segurança pública será tema centrar nas eleições 2026, afirma João Doria
O ex-governador também projetou que a segurança pública será o principal tema da eleição, superando inclusive a economia. Doria defendeu penas mais duras para crimes violentos, criticou a existência das “saidinhas” e afirmou que o Código Penal precisa ser revisto com foco em resultados. Ele também pediu mais investimentos federais e integração entre governos estaduais.
Em temas internacionais, João Doria criticou a sobretaxa imposta pelos Estados Unidos a produtos do Brasil e de outros países, avaliando que a decisão não teve fundamento técnico. Ele afirmou que o Brasil deve aproveitar disputas geopolíticas, como a rivalidade entre China e EUA, para ampliar mercados. Citou oportunidades no Norte da África, na Índia e na Europa, caso o acordo Mercosul-UE avance.
Doria reforçou que não pretende voltar à vida política. Disse que está dedicado ao setor privado, liderando novamente o LIDE, e que seu ciclo eleitoral se encerrou em 2022. Mesmo assim, afirmou que continuará contribuindo para o debate público por meio do diálogo e da moderação. “Radicalismo destrói. Precisamos de bom senso, respeito e diálogo”, disse ao encerrar a entrevista.
O Lide vem como uma empresa, mas também vem como um fornecedor de discussões sobre a amplitude do campo econômico. O senhor acredita que ele tem cumprido o papel para discussões importantes no campo econômico do Brasil, mas também trazendo a análise internacional?
João Doria: Muito obrigado pela oportunidade, obrigado pela entrevista, obrigado por estarem aqui. A Casa Lide, nós estamos aqui em São Paulo, na Casa Lide, uma instituição que eu fundei há 24 anos. Em maio do ano que vem vamos completar 25 anos. E sim, o Lide é um grande debatedor de temas nacionais e internacionais em todos os aspectos, tanto sociais quanto econômicos.
Nós temos no nosso board e nos comitês 14 ex-ministros de Estado, e como eu digo, 14 ex-bons ministros de Estado — e também pode ser ministro, não significa necessariamente que tenha sido um bom ministro. Os 14 que aqui estão foram bons ministros de diferentes governos: governo Lula, governo Dilma, governo Fernando Henrique Cardoso, governo do presidente Michel Temer, e que hoje ocupam posições aqui no nosso board.
Nós estamos presentes em 27 unidades no Brasil, 23 estados, faltam apenas quatro para completarmos todos os estados e o Distrito Federal. Coincidentemente, o mesmo número: temos 27 unidades fora do Brasil; teremos 28 daqui a duas semanas com a nossa nova unidade na Europa, na União Europeia, que é a Espanha.
O Lide tem 4.282 empresas associadas no mundo, a maioria obviamente aqui no Brasil, que é a sua principal unidade, e cumpre bem o seu papel de ser um agente aglutinador, uma ponte entre empresas de diferentes matizes e também uma boa ponte entre o público e o privado, seja no Brasil, seja no exterior.
Quando a gente fala de tudo isso, a gente fala de desafios. A gente tem acompanhado uma elevação da taxa Selic, as dificuldades do empreendedor. Como é que o senhor avalia as possibilidades de novos investidores para o Brasil diante dessas inseguranças jurídicas, que acabam tornando às vezes questionáveis as amplitudes de investimentos estrangeiros? Digo isso também porque, nesta semana mesmo, a gente observou que grandes investidores globais têm interesse no Brasil, mas se deparam com esse tipo de fator. Isso dificulta muito? Como é que está essa visão para o futuro, para 2026 talvez?
João Doria: Uma pergunta interessante. O Brasil continua sendo um país muito atrativo para o capital internacional, capital estrangeiro. Não há preocupação substantiva com taxa Selic, com taxa de juros. Há preocupação, sim, com segurança jurídica. Esse é o principal ponto de preocupação dos investidores internacionais. Eles entendem as intempéries políticas, isso é normal. Acontece até na principal nação do mundo, os Estados Unidos da América, que vivem uma intempérie política intensa com Donald Trump tendo sido eleito presidente dos Estados Unidos.
Também em países europeus acontece a mesma coisa, no Médio Oriente, em outros países há também essas intempéries. Isso não inibe e não faz com que esse capital estrangeiro fique longe do Brasil.
Também a questão da taxa Selic… há outros países onde a taxa é alta, não tão alta quanto o Brasil, mas também alta. O que inibe e às vezes impede esse capital de chegar ao Brasil é insegurança jurídica: regras que são estabelecidas e depois são mudadas; ou princípios que tornaram a economia mais liberada, portanto mais liberal, menos dependente da área pública e, consequentemente, menos sindicalizada, menos sofrível de influências ideológicas, políticas, partidárias — e de repente, por um ato governamental, principalmente do governo federal, possam se tornar vulneráveis novamente. É a única preocupação.
Nós temos, repito, 27 unidades fora do Brasil. Semana que vem eu sigo para Roma e Paris, onde vamos fazer os dois últimos eventos deste ano. São 14 eventos internacionais só neste ano de 2025, e o único ponto de preocupação que eu ouço dos investidores e empresários estrangeiros é insegurança jurídica.
Por isso, sempre levamos conosco, quase que a tiracolo, pelo menos um ministro do Supremo Tribunal Federal, que é a Corte Suprema do Brasil, para que possa testemunhar que as regras, ainda que possam ser ameaçadas de serem mudadas, há uma Constituição e há uma legislação que será obedecida. Portanto, as regras serão mantidas.
Ainda falando nesta questão do campo econômico: a derrubada do IOF, você acredita que foi positivo ou algo a se pensar no futuro do Brasil?
João Doria: A reforma tributária está longe de ser a reforma dos sonhos, mas foi a reforma possível. Melhor tê-la do que não. Então, eu entendo que ela é contributiva para o Brasil. Ela ainda não está implementada; será feita a partir do ano que vem e gradualizada ao longo dos anos. Mas entendo que ela terá um impacto positivo na economia brasileira.
O senhor falou da insegurança jurídica para que novos investidores sejam mais atraídos para o Brasil, embora a gente tenha atraído grandes investidores, grandes indústrias em todas as regiões do país, porque realmente tem proposição de crescimento, desenvolvimento e capacidade de absorção da mão de obra. Mas a gente tem olhado a economia talvez com falta de zelo, principalmente por parte dos gestores públicos. O senhor acredita que o fator economia no ano que vem pode pautar, inclusive, a disputa eleitoral?
João Doria: Pode, não substancialmente, mas vai impactar. Você tem razão: ela não tem sido gerida com o cuidado e o zelo que deveria. Embora eu goste, pessoalmente, do ministro Fernando Haddad, entendo que ele ficou um pouco refém das ideias e das imposições do Palácio do Planalto, o que prejudicou, a meu ver, a sua gestão como ministro da Fazenda do Brasil.
Não será o principal fator no debate eleitoral. O principal fator será a segurança pública. Mas esse fator também econômico, óbvio, será objeto intenso nos debates, do ponto de vista de que a economia não cresceu, a geração de empregos foi menor do que poderia, e a atratividade do Brasil para os investimentos externos, como já falamos, foi limitada, especialmente por ameaças de mudanças de regra, portanto, por insegurança jurídica.
Mas o grande tema das eleições de 2026, a nível federal e a nível estadual, será o tema da segurança pública.
Quando o senhor fala desse fator de segurança pública, que já é muito bem discutido por analistas, por quem realmente trabalha na área, tanto de segurança quanto de política, eu lhe pergunto: hoje tem receita? Ou a gente vai ter que começar do zero, estruturar uma receita? Porque o crime organizado, o nome já diz muito, e parece que nós estamos sempre um passo atrás, enquanto sociedade civil organizada. Você acredita que tem que evoluir quanto a isso?
João Doria: Mais do que receita, deve haver trabalho, atitude, iniciativa, propósito. Porque apenas levantar questões e pontos, pesquisar e debater não é suficiente. Precisa ter atitudes. Governos municipais, estaduais e o próprio governo federal precisam ter atitudes voltadas para a segurança. Atitudes que vão desde investimentos muito superiores aos que têm sido feitos, sobretudo no nível do governo federal.
Depois, planejamento, para que as ações possam ser feitas mais coordenadamente, envolvendo o governo federal e os governos estaduais em especial, e na sequência os governos municipais, para que o planejamento possa produzir uma redução da criminalidade e uma imposição de penas mais duras sobre os criminosos.
E aí é preciso ter a atitude do Legislativo, que precisa aprimorar o Código Penal brasileiro, fazendo com que os que cometem latrocínio, roubo, assalto, possam ser duramente penalizados; fora aqueles que matam e trucidam pessoas ou mutilam pessoas, que, a meu ver, precisam ser punidos de forma rigorosa. Não podem ter direito à saidinha, não podem ter direito à redução proporcional de pena. Devem cumprir integralmente as penas a que foram condenados por terem cometido crimes.
Governador, e quando o senhor vê essas discussões por parte de Brasília — PEC da Segurança politiza, Projeto de Lei Antifacção politiza, discussões sobre readequação da legislação penal — o senhor acredita que a gente pode perder muito tempo nessas discussões políticas sem que haja uma convergência entre direita, esquerda, centro? Talvez não tenha tido a prioridade adequada nesse momento tão importante para o Brasil?
João Doria: É um assunto que precisa ser tratado com cuidado e atenção. O debate é importante. Você não pode suprimir o debate, principalmente no Legislativo, em nome da velocidade e até do anseio, mesmo que seja da sociedade civil majoritariamente. Mas há que respeitar o rito legislativo para que o debate seja intenso, seja válido, o contraditório possa existir, posições da sociedade civil expressas nos plenários da Câmara e do Senado também possam acontecer e, na sequência, a decisão.
Eu sei que há pressa — todos nós temos — para que o Brasil tenha códigos de segurança melhores do que os que vem mantendo. Mas é preciso também ter respeito a esse debate legislativo, para que não haja dúvidas de que o saldo disso, ainda que possam ter pessoas contrárias, seja a vitória do conjunto da sociedade expressa pelos parlamentares — deputados federais e senadores — no Congresso Nacional.
Vamos falar um pouquinho mais de política, já que a gente começou a entrar no Congresso. Ano que vem, tudo indica que a gente pode ter um resquício de polarização ainda. O senhor acredita numa terceira via?
João Doria: Posso corrigir? Não haverá resquício, haverá polarização.
É isso que eu queria que o senhor me respondesse. O senhor acredita que vai ter ou pode surgir uma terceira via entre os nomes cotados? Temos Caiado, temos Ratinho, temos Zema, que ensaia também, ou realmente vamos de Tarcísio de Freitas, como já sinalizado esta semana?
João Doria: Nós teremos duas vias. Eu acho difícil haver uma terceira via alternativa. Não é impossível, mas eu considero difícil. Teremos duas vias e uma bipolarização muito forte entre esquerda e direita. O presidente Lula, como candidato à reeleição — seja qual for o seu vice — é o candidato Lula, é o nome de Lula, que é um radical de esquerda. E haverá os grupos de centro-direita, espero que sem radicalismo, incorporados aí hoje, em especial, na figura do governador Tarcísio de Freitas, e na sequência, um pouco mais à distância, o governador Ronaldo Caiado, de Goiás; também Romeu Zema, governador — ainda governador — será ex-governador a partir do primeiro de abril.
E, igualmente, Ratinho Júnior, atual governador do Paraná, que muito em breve também vai se desincompatibilizar. São quatro grandes nomes. Eu queria ressaltar que essa força de centro-direita é expressiva a partir da união de quatro nomes muito fortes por conta das gestões que fizeram nos seus respectivos estados. E o governo Lula, através do seu candidato Luiz Inácio Lula da Silva, fará todo o esforço possível para concentrar resultados do governo atual em torno da figura do candidato Lula para as eleições de outubro do ano que vem.
Dá para arriscar palpite?
João Doria: É cedo ainda. Eu acho que os palpites poderão ser arriscados, com alguma chance de sucesso, a partir de maio do ano que vem. Porque depois nós temos maio, junho, julho, agosto, setembro e já em 3 de outubro as eleições em primeiro turno. Então, nesses seis primeiros meses do chamado período eleitoral, aí sim poderemos ter uma visão mais clara e quem sabe sermos um pouco pitonisas em relação ao futuro.
Hoje é muito difícil você falar que um lado ou outro podem ganhar. Há um lado mais favorito — nesse momento, o do presidente Lula — mas há um lado bem articulado para o espaço eleitoral que será ocupado por candidatos de centro-direita.
Como é que o senhor avalia o posicionamento do presidente Trump em relação à taxação? Agora a gente observa um leve recuo, talvez por observância dos impactos que causou para ele politicamente lá. O senhor acredita que essa decisão realmente foi técnica ou houve uma ausência de leitura mais importante?
João Doria: Não, ela não foi técnica; foi absolutamente política. E muito injusta no caso do Brasil — acho que na maioria dos países também muito injusta. Não houve nenhum critério técnico do governo americano em relação à sobretaxa aplicada ao Brasil, aos países do Mercosul, da América Latina, da Comunidade Europeia — ou seja, da União Europeia — do Oriente Médio, junto à China. Foram medidas nocivas, hostis e sem nenhum amparo técnico.
O senhor acredita que essa disputa entre China e Estados Unidos traga um impacto para o restante do mundo? Ou o Brasil, um país que está em pleno desenvolvimento, buscando se recolocar de novo no cenário mundial, ocupando alguns postos, pode ter um ganho com isso também?
João Doria: Há um ganho. Sua pergunta é boa, no princípio de que onde você tem uma porta fechada, você tem que tratar de buscar uma porta aberta. Não adianta você ficar chorando junto à porta que foi fechada e não buscar outras portas abertas. É o que o Brasil tem que fazer: buscar novos mercados para commodities brasileiras, produtos e serviços do Brasil. Vou dar alguns exemplos, entre muitos que possuo.
A África — o continente africano, especialmente o norte da África — pode ser um grande consumidor de produtos brasileiros: sejam commodities, sejam minérios, sejam outros produtos que são consumidos já por esses países, mas via Europa e não diretamente, como é o caso do Brasil. Essa é uma alternativa. Outra alternativa: lembrando que a União Europeia está na iminência de assinar, finalmente, depois de 21 anos, o contrato Mercosul-União Europeia. Se isso ocorrer — e eu tenho a expectativa de que deve ocorrer até 20 de dezembro — muda a história, porque a União Europeia para o continente latino-americano, especialmente o Mercosul, representa mais do que os Estados Unidos da América em potencial de consumo.
Então, isso pode ajudar muito. Países que são fortes produtores de commodities, como é o caso do Brasil, da Colômbia, do Peru, um pouco menos a Argentina, o Chile, vão extrair amplos benefícios dessa circunstância de poder colocar seus produtos, commodities e também serviços para a União Europeia, sem as questões da relação bilateral Europa–Mercosul e, particularmente, Brasil.
A gente vê que o Brasil está se movimentando para ocupar um espaço maior, principalmente no Mercosul, ampliando as relações. O senhor citou muito bem a União Europeia, que passa por um momento até um pouco delicado. A gente não corre o risco no futuro de passar por essa situação também, de já estar em um conglomerado de países que decidem em conjunto?
João Doria: É um ponto de reflexão — você colocou bem. É um ponto que merece a reflexão por parte do Brasil. Eu quero ressaltar que o Brasil tem uma diplomacia de muito boa qualidade. Se deixarem os diplomatas brasileiros trabalharem sem influência política, sem influência ideológica, sem influência partidária, sem influência do ódio, do ressentimento, eu tenho certeza de que a diplomacia brasileira vai produzir bons resultados. Seja a nível do principal parceiro comercial do Brasil, que são os Estados Unidos da América; seja com países que não estão no top 3 de consumo de produtos e serviços brasileiros, incluindo commodities quando se fala de produtos, mas que têm um potencial gigantesco.
Exemplo: a Índia. O Brasil é muito tímido na relação com a Índia. A Índia é o país com o maior volume de habitantes do mundo. Tem mais habitantes do que a China, embora tenha um continente, na sua dimensão geográfica, com capacidade de apresentação continental. Mas o Brasil precisa trabalhar melhor esse mercado. Se fizer isso, o Brasil sai ganhando. Diante de uma crise, você sempre tem uma alternativa, transformando a crise em oportunidade.
Vamos falar do João Doria. A gente começou falando dos seus mandatos, mas não falou da sua trajetória. Governador, prefeito, apresentador de TV, empresário de sucesso. Está satisfeito, em especial, com a vida pública? Ou o senhor ainda pretende contribuir um pouco mais? O senhor, de fato, aposentou a carreira política e vai focar nos negócios?
João Doria: Bem, eu encerrei a minha carreira pública e política três anos atrás, em 2022. Estou de volta ao setor do qual eu pertencia, que é o setor privado, o setor empresarial, o setor produtivo. Fiz seis anos dentro da área pública, ganhei todas as eleições que disputei, ganhei três prévias do PSDB, ganhei as prévias do PSDB, mais três que ganhar a eleição majoritária. O nível de enfrentamento que você tem dentro de casa é mais surpreendente do que aquele que você tem em uma eleição majoritária.
Venci em primeiro turno as eleições na capital de São Paulo — até hoje o único que venceu no primeiro turno aqui na história política de São Paulo. Venci as eleições também para o governo do estado de São Paulo. Fizemos bons governos. Eu tenho muita tranquilidade; não vou ter falsa modéstia de afirmar isso, principalmente porque tivemos boas equipes, bons times, tanto na prefeitura quanto no governo do estado.
Mas depois tomei a decisão de encerrar a minha vida política, me desfiliei do PSDB e tomei a decisão de voltar e ficar na vida privada, onde estou. Reassumi a minha posição no LIDE, sem machucar a estrutura que já estava aqui posta. Aceleramos muito o nosso crescimento nesses dois anos e meio, quase três anos. Vou ajudar o Brasil onde eu puder, como já estamos ajudando. Isso não implica que eu me afaste do país que eu amo. Eu amo o Brasil e quero ajudar o Brasil e, repito, é o que temos feito. E torcer para que o ano que vem possamos ter um nome longe do radicalismo.
O que eu não acredito, com muita sinceridade, é que populistas de esquerda ou de direita possam ajudar a construir um Brasil mais justo, mais solidário, mais próspero e com menos pobreza. Eu não acredito em populistas — repito — nem de esquerda nem de direita.
E eu lhe pergunto sobre o cenário atual político do Brasil. O senhor que vem de um momento em que o Brasil discutia política com inteligência, sabedoria e grandeza: hoje é fácil fazer isso? É difícil? Praticamente impossível? E a gente pode voltar a sonhar com isso no Brasil?
João Doria: Complexa a sua pergunta. Acho que podemos sonhar. É sempre bom sonhar — sonhar pelo bem, não pelo mal. É mais agradável você ter sonhos do que pesadelos. O pesadelo é continuar essa política ruim do Brasil, muito polarizada, com raras exceções, com visões radicais. Radicalismo não constrói; radicalismo destrói. Se tivermos bom senso, diálogo, compreensão, valorização e respeito ao processo democrático, ao contraditório, opiniões diferentes, não devem fazer com que quem tem essa opinião distinta da sua seja inimigo porque não concorda com você.
Muitas vezes essa opinião ajuda a melhorar a sua própria versão e as atitudes que você embasa para a sua conduta, seja na área pública — principalmente — mas também na área privada. Então, é uma pergunta complexa. Eu torço muito pelo Brasil. Queria concluir dizendo que torço pelo bem do Brasil, pelo melhor para o Brasil, com o que temos. Se você for buscar um candidato ideal, neste momento nós não temos um candidato ideal. Temos bons candidatos. E eu volto a repetir: Tarcísio, Ratinho, Caiado, Zema são bons candidatos.
Talvez não tenhamos um candidato que pudesse refletir aquilo que foi Fernando Henrique Cardoso quando foi presidente, Juscelino Kubitschek quando foi presidente, o mesmo presidente Michel Temer — sendo justo — como um grande presidente do Brasil. Este nome nós não temos, neste momento, no cenário. Mas são honestos, são boas pessoas, são cumpridoras de boas gestões históricas em períodos recentes. Se estiverem juntos e se mantiverem juntos, com zelo e distante de radicalismos e também de vaidades pessoais, poderão fazer uma grande campanha e poderão chegar, um deles, ao segundo turno como presidente Lula. E vencer, quem sabe.