antigos escândalos políticos moldam o voto no estado?


O voto na urna eletrônica define os rumos políticos e coloca o passado em disputa no Piauí diante do pragmatismo e das necessidades do eleitoradoO voto na urna eletrônica define os rumos políticos e coloca o passado em disputa no Piauí diante do pragmatismo e das necessidades do eleitoradoFoto: Reprodução TRE-PR/ND Mais

A história política do estado é marcada por uma engrenagem onde o tempo dos tribunais e o tempo das urnas correm em ritmos completamente diferentes, colocando o passado em disputa no Piauí. Nas últimas décadas, o estado foi cenário de episódios marcantes que ganharam repercussão no país inteiro: de cassações inéditas de governadores a operações policiais de grande escala que fecharam o cerco contra desvios milionários de dinheiro público em dezenas de prefeituras.

No plano institucional, esses processos geram condenações, prisões e registros oficiais. Na realidade eleitoral, porém, o desfecho judicial quase nunca significa o fim de uma carreira política.

Longe de ficarem restritos aos arquivos do Judiciário, esses escândalos do passado ganham uma sobrevida estratégica a cada nova eleição. Eles deixaram de ser apenas registros policiais para virar uma ferramenta de desgaste utilizada por opositores, que resgatam denúncias antigas para elevar a rejeição de adversários e enfraquecer grupos consolidados.

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A sobrevivência eleitoral de figuras investigadas nesses episódios expõe o pragmatismo do eleitor piauiense. Diante de cenários complexos e de uma realidade econômica regional que depende fortemente da máquina pública, a decisão do voto no Piauí costuma equilibrar o peso do histórico jurídico dos candidatos com a capacidade prática de manter o funcionamento dos serviços, garantir assistência e mediar recursos para os municípios.

O ‘Recall’ Político: O caso pioneiro que desafiou o tempo

A história da Justiça Eleitoral brasileira guarda um marco que tem o Piauí como protagonista. Em 2001, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cassou, pela primeira vez na história do país, o mandato de um governador eleito por abuso de poder econômico. O episódio envolvendo Francisco de Assis de Moraes Souza, o Mão Santa, e o seu vice redesenhou a política local na época, mas o desdobramento nas urnas revelou um fenômeno que cientistas políticos chamam de recall eleitoral.

Na ocasião, os dois foram acusados de 22 irregularidades, e o TSE considerou 9 delas válidas para aplicar a cassação. Entre as práticas comprovadas estavam a distribuição de remédios a eleitores, a anistia de contas de água e a promoção pessoal por meio de programas sociais com nomes associados ao apelido do governador, como o “Sopa na Mão”.

Francisco de Assis de Moraes Souza, o Mão Santa: mesmo após sofrer cassação histórica em 2001, político manteve forte capital eleitoral e conquistou mandatos de senador e prefeito nas décadas seguintes.Foto: Reprodução/Senado/ND MaisFrancisco de Assis de Moraes Souza, o Mão Santa: mesmo após sofrer cassação histórica em 2001, político manteve forte capital eleitoral e conquistou mandatos de senador e prefeito nas décadas seguintes.Foto: Reprodução/Senado/ND Mais

Eles haviam sido absoltos pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), mas o segundo colocado na disputa, Hugo Napoleão, recorreu ao tribunal superior. A corte considerou que esses abusos influenciaram diretamente o resultado da eleição, seguindo o voto do relator Nelson Jobim e o parecer do procurador-geral eleitoral, Geraldo Brindeiro, que recomendaram a condenação.

Mesmo após perder o cargo máximo do estado por causa desse esquema, o capital político de Mão Santa continuou forte. Logo na eleição seguinte, em 2002, ele conseguiu se eleger senador e, anos mais tarde, emendou mandatos como prefeito de Parnaíba, a segunda maior cidade do estado.

Esse histórico de resiliência nas urnas mostra como o passado em disputa no Piauí não é apagado pelas decisões dos tribunais, mas reconfigurado pelo carisma e pela identificação popular. Quando o político tem forte identificação regional e uma comunicação popular eficiente, o eleitor tende a deixar o processo judicial de lado em favor do carisma e das ações locais.

O Impacto nos Serviços Básicos: O Peso da Operação Topique

O debate sobre a corrupção ganha contornos mais complexos quando o desvio atinge diretamente a ponta dos serviços públicos essenciais, como a educação e o transporte de estudantes no interior do estado. O maior exemplo desse impacto no ecossistema político do Piauí é a Operação Topique — cujo nome faz alusão ao termo popular usado para os veículos de transporte escolar —, deflagrada pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU).

De acordo com as investigações, o esquema envolvia fraudes em licitações feitas em conluio por empresas e agentes públicos. O grupo desviava recursos por meio de subcontratações irregulares e superfaturava os valores cobrados em uma média de 40% sobre o que era pago pelas empresas contratadas. Entre 2013 e 2017, as firmas investigadas receberam cerca de R$ 297 milhões pagos pelo Estado do Piauí e por mais de 40 prefeituras para serviços de transporte escolar e locação de veículos.

Deflagrada pela PF e pela CGU, a Operação Topique evidenciou fraudes no transporte escolar e hoje alimenta o passado em disputa no Piauí durante os ciclos de campanha.Foto: CGU/Reprodução/ND MaisDeflagrada pela PF e pela CGU, a Operação Topique evidenciou fraudes no transporte escolar e hoje alimenta o passado em disputa no Piauí durante os ciclos de campanha.Foto: CGU/Reprodução/ND Mais

A CGU apurou um prejuízo potencial superior a R$ 119 milhões. O órgão de controle aprofundou as investigações com fiscalizações nos municípios piauienses de São Raimundo Nonato, Campo Maior, Miguel Alves, Luís Correia, Caracol e Regeneração, além de contratos do governo estadual e de auditorias nas cidades maranhenses de Timon e São João do Sóter.

A ação mobilizou 180 policiais federais e nove auditores da CGU para cumprir 14 mandados de prisão preventiva, nove de prisão temporária e 40 de busca e apreensão em Teresina (PI), São João da Serra (PI), Olho D’Água do Piauí (PI) e Coelho Neto (MA).

Embora o grupo político associado à gestão estadual da época tenha enfrentado um desgaste imenso com a operação, ele manteve sua hegemonia nas urnas.Esse cenário traz o passado em disputa no Piauí para o campo da governabilidade: a resposta do eleitorado deixa claro que o peso de investigações complexas de colarinho branco muitas vezes é neutralizado pela capacidade prática das lideranças de manter a máquina pública funcionando.

Herança e Sobrevivência nas Cidades do Interior

Quando o cenário se desloca da capital e das grandes discussões estaduais para os pequenos municípios do interior do Piauí, a dinâmica do pós-escândalo ganha contornos de sobrevivência familiar. Um caso emblemático foi a Operação Geleira, que resultou em uma ação massiva da Polícia Federal para desarticular uma rede criminosa especializada em fraudes estruturadas.

A investigação durou mais de dois anos e foi coordenada pelo Ministério Público Federal. O esquema consistia no uso de empresas fantasmas que atuavam como fornecedoras para os municípios e na emissão de notas fiscais frias, desviando recursos públicos carimbados para áreas críticas, como o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). A PF apontou que a quadrilha movimentou mais de R$ 5 milhões em apenas dois anos, considerando somente três dos municípios envolvidos.

Para cumprir os mandados autorizados pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília, a operação mobilizou mais de 300 agentes federais e 28 fiscais da CGU. A estrutura contou com aeronaves e vans para o transporte de 30 presos, que responderam por crimes de sonegação fiscal, desvio e apropriação de dinheiro público, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.

As prisões atingiram empresários, contadores, assessores, ex-secretários municipais e prefeitos em pleno exercício do cargo. Entre os gestores detidos estavam Valdir Soares da Costa (Uruçuí), Joedison Alves Rodrigues (Landri Sales), Isael Macedo Neto (Caracol), Teresina de Jesus Miranda Dantas de Araújo (Eliseu Martins), Jorge de Araújo Costa (Ribeira do Piauí), Bismarck de Arêa Leão (Miguel Leão) e Domingos Bacelar de Carvalho (Porto).

O rastro das prisões temporárias também expôs os laços familiares da região. Foram presos os ex-prefeitos Francisco Donato de Araújo Linhares Filho, o Chico Filho (Uruçuí), e Juraci Alves Rodrigues (mãe do então prefeito de Landri Sales e ex-prefeita de Eliseu Martins), além do filho da prefeita de Eliseu Martins da época. A PF realizou buscas e apreensões em cidades como Marcos Parente, São Raimundo Nonato, Várzea Branca, Amarante, Floriano e Teresina. A varredura incluiu o gabinete da deputada estadual Ana Paula Linhares na Assembleia Legislativa. A parlamentar não era alvo direto de acusações, mas seu gabinete foi investigado por intermediar contatos no período em que seu irmão, Chico Filho, governava Uruçuí.

Apesar da magnitude da operação e do forte impacto institucional provocado pelo uso de aeronaves federais para prender lideranças locais, o tabuleiro político mudou pouco a longo prazo. Nos anos seguintes, em vários dos municípios atingidos pela operação, como Uruçuí e Caracol, os grupos investigados conseguiram eleger parentes diretos ou contaram com o retorno dos próprios líderes ao comando das prefeituras, impulsionados por liminares e decisões favoráveis na Justiça.

Isso reforça a tese de que, no interior, o eleitorado adota uma postura pragmática, onde redes de apoio, assistência local e a manutenção de serviços básicos pesam mais do que os processos de colarinho branco que tramitam nos tribunais.



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